Entre o altar da esquerda e o purgatório da direita: Um comentário crítico sobre "As Veias Abertas na América Latina", de Euduardo Galeano - Portugiesisch

 

Palestra de  Dr. Paulo Rogério Melo de Oliveira (Universidade do Vale do Itajaí)

 

Desde que foi lançado, em 1971, As Veias Abertas da América Latina, do escritor e ensaísta uruguaio Eduardo Galeano, tornou-se uma referência, um símbolo de resistência e de luta das esquerdas latino-americanas contra o que denominam de ações imperialistas e exploração de grupos estrangeiros e seus consortes locais na região. Paralelamente, sobretudo nas duas últimas décadas, com a emergência de governos de esquerda na América do Sul, a obra e o autor vêm sendo alvo de duras críticas de intelectuais e ativistas situados politicamente à direita. A intenção, ao que parece, é desmistificar a obra e as teses que a constituem com o intuito de salientar as fragilidades e inconsistências que sustentam a visão histórica das esquerdas latino-americanas. Se de um lado, a obra é celebrada e cultuada como essencial para entender o processo de exploração e expropriação das Américas e o persistente atraso regional, de outro, ela é vista como superada, irrelevante, equivocada, e um atestado do atraso político da esquerda. Todavia, entre o altar em que foi colocada pela esquerda e o purgatório ao qual foi condenado pela direita, abre-se um rico espaço para o exercício da crítica política e historiográfica que considere o contexto de produção da obra, os debates intelectuais e os círculos frequentados por Galeno e, ao mesmo tempo, aponte o que a obra ainda tem de atual e o que efetivamente ficou para trás. Mais do que um catecismo guevarista ou uma síntese histórico-econômica obrigatória da América Latina, como queiram seus detratores ou admiradores, As Veias Abertas, uma das obras mais influentes do continente, apresenta-se como um documento valioso para entendermos como pensava, e como ainda pensa, uma grande parcela da intelectualidade da esquerda latino-americana. Do mesmo modo, as manifestações de setores da direita em relação à obra e o autor são reveladoras da maneira como, historicamente, pensaram e pensam a América Latina.